Não saio de casa sem o meu bloco de notas. Levo-o comigo para todo o lado. Por isso, o texto de hoje é uma mistura entre o que escrevi no dia 15 de junho de 2026 e uma breve reflexão de quem relê estas palavras em outubro.
Já faz algum tempo que não escrevo sobre a gravidez. Agarrei-me a ela (à gravidez), agarrei-me a ti, filho ou filha, para que sentisses cada batida, cada acorde, cada pulsar de música como eu senti. Este Primavera (o festival) foi muito especial. Estou ansiosa para ver esses pequenos dedos e mãos tocarem num disco, para as pequenas orelhinhas ouvirem as primeiras músicas. Nem vou saber bem por que álbum ou por que artista começar.

Durante o festival, percebi que já não tenho medo de perder a minha identidade, de não ter tempo. Esse medo foi substituído por uma imensa curiosidade sobre como será o futuro, a vida a três. As viagens, os passeios, os festivais, as aventuras… Eu quero que a vida e o bom do mundo te entrem pelos olhos, ouvidos, boca e mãos.
Até agora, estou a ter uma gravidez tranquila. Não tenho enjoos, nem dores ou mal-estar. Sinto-me bem, feliz e animada. A viver numa bolha, por vezes. Uma bolha de amor, carinho e expectativa. Continuo a tentar viver um dia de cada vez, porém.
“É preciso resgatar a beleza.” Assim estava escrito num excerto de um livro que uma amiga partilhou comigo. Às vezes, tenho receio de falar e escrever sobre a minha experiência de gravidez por estar a ser, de modo geral e (sublinho) até agora, positiva, porque se assim o é, então é fantasia, um “sonho”; se é negativa, então é pessimista ou, para alguns, a única realidade possível para uma gravidez.
Mas quando é que tudo tem de ser preto ou branco? Quando é que falar de algo verdadeiramente positivo e não artificialmente positivo é motivo de tamanha hesitação? Quando é que deixámos de ser capazes de acolher uma experiência contrária à nossa?